CARTA ABERTA A QUEM QUISER APOIAR O MANIFESTO
Por que este show existe.
Esta carta nasceu para quem pode patrocinar o Drag À La Carte. Decidimos deixá-la aberta aqui, para todo mundo ler. Apoiar este show é assinar embaixo de um manifesto, e manifesto não se assina escondido. Quem apoia, apoia em público.
Antes de pedir qualquer coisa, quero contar de onde este show vem. Ele não nasceu de uma ideia de mercado. Nasceu de uma dor.
A dor de onde ele nasce
Existe uma dor que quase ninguém nomeia: a de não ter voz. Não poder falar é uma parte dela. A parte mais funda é não saber qual é a própria voz. Muita gente aprendeu a mexer os lábios antes de ter voz. Decorou a música dos outros porque a sua ainda não podia ser cantada. Fez carão quando sentia medo, riu quando queria chorar, e chamou isso de sobrevivência. Era.
A gente se acostumou a dizer que a opressão vem de fora. E ela vem. Mas a ditadura não terminou num ano qualquer do passado: ela mudou de endereço. Hoje mora dentro da cabeça de cada um de nós, gays e héteros, quem se acha livre e quem nunca pensou nisso. Cada bolha tem o seu código. E ai de quem não rir da piada da bolha.
A ditadura brasileira tirou a voz de muita gente. Este não é um show sobre ela, mas ela está nas bordas: ele abre perguntando à plateia se ela acha mesmo que vive numa democracia, e termina com uma faixa erguida no palco: Ditadura nunca mais.
Por isso este projeto não aponta o dedo para um inimigo lá fora. Ele faz uma pergunta mais difícil: quanto de nós precisamos esconder, inventar ou abandonar para continuar sendo amados? E outra, logo atrás: como acusar alguém de ser falso, se essa pessoa ainda nem sabe quem é?
Lip Sync de Boteco é a democratização das vozes que são caladas e a provocação das vozes que tentam calar uma voz.
Toda dor é sagrada. A mais profunda é a de quem perde o direito de ter voz. Este show existe para devolver essa voz, e para cutucar quem tenta tirá-la, inclusive quando quem tenta somos nós.
Uma costura de vozes, não uma peça de diálogo
Drag À La Carte não é uma peça em que personagens conversam até resolver uma trama. É uma costura de vozes. Uma banda toca dez músicas, e entre elas, e às vezes por dentro delas, entram vozes. Cada voz é um retalho: uma provocação, uma confissão, alguém flagrado no meio de um erro, alguém contando baixinho a coisa que nunca contou.
Elas não precisam de enredo para se justificar. A música costura. As vozes costuram. O resultado fica mais perto de um oratório, ou de um show de vozes, do que do teatro de história amarrada.
Essa escolha não é estética por acaso. Um enredo fixo empurra cada pessoa para um papel fixo: o vilão, a vítima, o herói que aprende a lição. É exatamente isso que o show recusa. Ninguém nasceu para ser função permanente. Então a própria forma do espetáculo se recusa a dar função fixa até às suas vozes.
E sem uma trama para acompanhar, a plateia não fica assistindo à vida dos outros. Fica escutando a própria.
Por que começamos no escuro
O show começa de porrada. A sala escurece e uma voz, sem corpo, convoca: com raiva justa, com a beleza de quem cansou de pedir licença para existir. É um discurso de liberdade de arrepiar. A plateia se levanta por dentro. Concorda. Se emociona.
O que acontece em seguida fica guardado para quem estiver na sala. Mas posso contar o porquê: o primeiro a cair no feitiço de um discurso bonito é sempre quem assiste. A abertura avisa, sem dizer: cuidado com o que te emociona rápido demais. Até a revolta mais justa pode virar pose, e até a palavra liberdade pode virar slogan de copo de festival.
Quem sai dessa abertura não sai ofendido. Sai acordado, rindo de si mesmo, e com a guarda baixa para o que vem depois.
Ninguém tem lugar fixo, nem quem fala
Neste show, a mesma personagem que soa estúpida numa fala é a mais lúcida na seguinte. Quem foi maldosa agora há pouco pode ser a mais simples e verdadeira daqui a um minuto. Ninguém é tipo. Ninguém é exemplo.
As vozes convivem em três temperaturas, sem ordem previsível:
- A voz-lâmina, que provoca "para o seu bem" e acha que está acordando os outros.
- O depoimento, de alguém que senta do lado de uma pessoa da plateia e conta o que viveu, quase rindo de si.
- O flagrante, alguém pego no meio do erro, no presente, falando sem perceber que erra. Ninguém corrige. O soco é o silêncio depois.
E elas trocam de lugar o tempo todo. Quem fala por todos pode estar certíssimo e, no instante seguinte, redondamente errado. Quem fala só de si, humilde, às vezes abre a maior porta da noite. Quem desperta os outros também é despertado.
Isso não é um capricho de roteiro. No momento em que a plateia acha que entendeu a regra, ela para de se perguntar. E a pergunta é o espetáculo.
Por que a ironia
O que este show tem a dizer é duro. Dito de cima de um palanque, ninguém escuta: as pessoas cruzam os braços e se defendem. Dito com ironia, entra.
A ironia é o açúcar que faz a pílula descer. É a gargalhada que baixa a guarda um segundo antes da pergunta que dói. Ela vem da tradição que nos formou: o boteco, o deboche, a dublagem, a drag que perde a peruca e continua dançando. A cultura queer sempre soube transformar o que tentaram usar para diminuí-la em brilho, humor e sobrevivência.
O riso aqui não substitui o pensamento. Ele abre a porta para ele. A plateia ri, e no meio do riso percebe que a piada era sobre ela.
O espelho vira para a plateia
O show não persegue o errado óbvio. Contra o preconceituoso declarado, todo mundo já sabe o que pensar. O que ele persegue é mais fino: a pessoa certa, no auge da própria razão, que não percebe onde ainda está presa. É de dentro da razão que nasce a cegueira.
O mecanismo é sempre o mesmo: nunca um sermão, sempre uma pergunta irônica, no presente, que faz a pessoa se ouvir. Um exemplo, inventado para esta carta:
Alguém, orgulhoso, diz no meio da conversa: "Eu respeito todo mundo. Só não suporto gente que fica se exibindo."
E uma voz, quase com carinho, pergunta: "Exibindo o quê? Ou exibindo quem você não teve coragem de ser?"
Ninguém responde. Ninguém precisa. A bandeira que a pessoa carregava cai em cima do próprio pé, e quem leva o susto é quem está assistindo, porque já disse aquela frase alguma vez.
Uma novela de rádio às 5:38 da manhã
Perto do fim, depois de uma noite de excesso em que todo mundo já virou delírio, duas drags colocam fones de ouvido, pegam o script e chegam perto do microfone. Uma voz anuncia: "Vem aí a nova novela das 5:38 da manhã. Como nascem as Drags. Uma mãe narcisista e um menino que guardava um segredo."
A plateia ri do melodrama. A cena é brega de propósito: dramalhão de novela mexicana, pausa dramática, voz tremendo, locutor anunciando o próximo capítulo. Mas por baixo do exagero, as duas vozes têm razão e as duas erram. Como a história termina, quem estiver na sala vai descobrir.
Escolhi a novela de rádio de propósito. Ela traz o tempo em que as vozes do país passavam pelo rádio e pela censura, os anos da ditadura de que o show fala desde o primeiro minuto. A ditadura de fora caiu. A de dentro continua no ar, às vezes na voz de quem nos criou.
E é também uma homenagem. A Blogueirinha, uma das referências que atravessam este álbum, fez a sua própria novela, Blogueirinha, a Feia. A nossa novelinha conversa com ela, na mesma língua, logo antes da música que leva o nome dela.
Imagino o jovem que vem ao show com os amigos e traz a avó ou a mãe. Cada um ri de uma coisa diferente. E os dois saem tocados pela mesma cena, porque às vezes tem gente que não sabe dizer eu te amo da forma que a gente deseja, e mesmo assim diz.
Vozes que qualquer pessoa pode vestir
As seis personagens da Lip Sync de Boteco são criadas com inteligência artificial, e isso é uma decisão, não uma economia. Uma voz sem dono fixo pode ser apropriada por qualquer um. Hoje é uma personagem na tela; amanhã é um ator, uma atriz, uma drag, um estudante, alguém sozinho no quarto dublando uma frase que finalmente diz o que ele sente. É a lógica do lip sync levada ao limite: mover os lábios com a voz de alguém até encontrar a própria.
Por isso o show não espera o palco para existir. Ele já acontece neste site e nas redes sociais. Cada post faz uma das perguntas do espetáculo. O site vira um repositório de vozes e propósitos, aberto, crescendo. O álbum Drag À La Carte, com dez faixas, é a porta de entrada.
Quando o espetáculo chegar ao palco, não vai começar do zero. Vai encontrar uma plateia que já conhece as vozes, já cantou os refrões e já se fez algumas das perguntas sozinha.
O que o seu apoio faz acontecer
Quem apoia este show não está pondo o nome num showzinho de humor. Está ajudando a levar ao público uma pergunta que quase ninguém tem coragem de fazer em voz alta: que liberdade eu reivindico para mim e nego ao outro?
O que já existe hoje:
- O álbum Drag À La Carte, dez faixas, letras de F. K. Guimarães, em todas as plataformas a partir de 23 de outubro.
- As seis personagens e seu universo visual.
- Este site e os perfis nas redes.
- O manifesto da Lip Sync de Boteco.
O roteiro completo, com as vozes, os flagrantes e os depoimentos encarnados faixa a faixa, está em desenvolvimento. Esta carta não é o roteiro. É o porquê dele. O espetáculo terá direção de Gilberto Gawronski.
As marcas, empresas e pessoas que apoiarem o Drag À La Carte serão apresentadas nesta página como apoiadoras do manifesto.
Se essa pergunta também te incomoda, este é o seu convite: fale com a gente pela página Apoie.
A noite está servida. As pessoas, não.
— Fabio K. Guimarães (F. K. Guimarães)
